Cadê a sondagem, professor?

     Cadê a sondagem? Colocou a data? Fez intervenção?

     Desde os primeiros tempos nos quais entrei em contato com o magistério, no início dos anos 90, é sempre a mesma história. Todas as vezes que ouço perguntas sobre sondagem, me remeto às aulas do técnico, quando minha professora de didática me mostrava vídeos de Emília Ferreiro, eu ouvia falar e até cheguei a assistir um pouco do Projeto Ipê ou quando eu ia fazer estágio e as professoras, que davam a mesma aula há anos se descabelavam para fingir que estavam entendendo alguma coisa daquele tal de construtivismo.

     Sempre entendi de pronto tudo aquilo. Acho que foi importante para tirar a educação brasileira do ‘freezer’, mas… permanecer quase naquilo mesmo até hoje, quase vinte anos depois?

     Eu concordo ainda que é interessante analisar o modo de pensar do aluno, porém, nos dias atuais, é quase um crime ainda ter que usar praticamente o mesmo tipo de sondagem – com polissílaba, trissílaba, dissílaba, monossílaba e oração, contendo uma das palavras já escritas na mesma sondagem.

     Em tempos de web 2.0, twitter, tv com transmissão digital, orkut, vídeo games com sensores de movimento, kindle, magic mouse e interação o tempo inteiro é muito difícil conseguir a mesma concentração de antes. Dou aqui exemplos diversos do efeito tecnológico em nossas vidas. Apesar de muitos professores nem terem contato com tudo isso, os alunos são praticamente parte desse mundo.

     Todas as vezes que ouço as mesmas perguntas, que se baseiam nas mesmas teorias fossilizadas – assisti vídeos do projeto ipê nos anos 90 e fiz o curso do PROFA com a imagem do mesmo menino, com a mesma sondagem em 2.002 – me seguro para não dizer uma grande variedade de verdades verdadeiras: “Vê se no vídeo de quem sugere isso, há uma sala de aula em volta! Queria ver fazer  a mesma sondagem com os alunos vindo te perguntar coisas o tempo todo! Eu sei que é para registrar, mas eu poderia estar fazendo algo muito mais interessante neste tempo com o aluno!”

     Minha revolta quanto à sondagem não é com quem me cobra, mas sim com o infeliz que senta numa cadeira num departamento qualquer, lê teorias da idade da pedra – considerando a velocidade da informação nos dias atuais – e confia cegamente em pessoas que fazem experiências com alunos em idade de alfabetização, sem ter uma classe e com o aluno totalmente fora de contexto.

     O aluno sozinho é uma pessoa totalmente diferente dele no contexto da sala. É impossível dizer que ele terá as mesmas reações do que quando está no seu grupo de colegas. O pior de ter que aplicar tais experiências para analisar leitura e escrita, é que nem sequer seguem o que damos na aula, pois se fizéssemos ainda desse jeito, aí sim é que o aluno não sairia do período pré-cambriano…ops… pré-silábico da escrita.

     O processo de aquisição da leitura e escrita seguem a mesma evolução da humanidade. Em algumas crianças ocorre mais rápido do que em outras e as intervenções deveriam ser pontualmente as pelas quais o homem passou para avançar em seus conhecimentos, porém adaptadas.

     Percebo maiores avanços em meus alunos quando faço esse tipo de intervenção – e de maneira coletiva . É uma pena que sempre tenho que parar para ‘dar sondagem’. Seria maravilhoso poder trabalhar de acordo com o que o aluno precisa e não de acordo com o que o sistema necessita.

     Enquanto não se percebe isso, vamos continuar fazendo o mesmo de vinte anos atrás e fingindo que está tudo certo; afinal de contas, quem somos nós, meros professores que trabalham diretamente com as crianças, para saber o que é melhor para elas e para nosso próprio trabalho?

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